O rolezinho e a infelicidade programada

Maurício de Araújo Zomignani
 
 Meados dos anos 70 e os estúdios Hanna Barbera apresentaram uma série de desenho animado reunindo personagens, como: Pepe Legal, Dom Pixote, Pop pai e Pop filho, Leão da Montanha, Zé Colméia e Catatau. Chamava-se a Arca do Zé Colméia e o enredo girava em torno de viagens realizadas pela turma, que passava o tempo olhando a paisagem e se divertindo numa arca de Noé que voava, exceção ao personagem Maguila, um enorme gorila que ficava o tempo todo no porão. Ocorre que a embarcação toda se movimentava através de uma hélice cujo motor era uma esteira rolante, sobre a qual ficava o gorila, tendo à sua frente um vistoso cacho de bananas que, buscado e jamais alcançado, fazia mover toda a engrenagem.
 
Para além da diversão, o desenho ajuda a pensar o funcionamento da sociedade, ainda mais em tempos de rolezinho, fenômeno social no qual jovens da periferia de São Paulo têm invadido às centenas shopping centers de luxo causando pavor a consumidores, lojistas e preocupação à Segurança Pública. É claro que eles têm que se preocupar: como poderiam se sentir os personagens do desenho se, de repente, o Maguila simplesmente subisse ao convés? No desenho, isso jamais aconteceu.
 
Mas o Maguila somos nós. As bananas, é claro, são a felicidade que nos é prometida através do consumo mas, assim como o motor à gasolina é chamado de motor à explosão por ser através da explosão controlada que é gerada a energia, o que move a sociedade é um motor à insatisfação. Nós movimentamos toda a sociedade pelo consumo, o qual, centrado apenas nas necessidades objetivas dos seres humanos, logo se percebeu, não seria suficiente para movimentar a ganância dos personagens sociais que querem viajar e divertir-se apropriando-se do sacrifício da massa de Maguilas. Foi assim que surgiu a necessidade da propaganda, que incute permanentemente novas necessidades, e a obsolescência programada.
 
A obsolescência programada é uma estratégia de mercado surgida nos países capitalistas nas décadas de 1930 e 1940 que visa garantir um consumo constante através da insatisfação, de forma que os produtos que satisfazem as necessidades daqueles que os compram parem de funcionar ou tornem-se obsoletos em um curto espaço de tempo, tendo que ser obrigatoriamente substituídos de tempos em tempos por mais modernos.
Acontece que os magos da manipulação das massas não conseguiram prever o óbvio. Se durante séculos nós Maguilas, hipnotizados pelas bananas, nada mais conseguimos fazer senão correr atrás delas, a revolução da comunicação ocorrida nas últimas décadas, e o acúmulo de insatisfação, tem gerado gorilas que estão resolvendo descer da esteira rolante, pegar o cacho inteiro e invadir o andar superior para curtir a paisagem, não importa o que aconteça com a Arca.
 
Discute-se apenas estratégias de repressão, no máximo denuncia-se a urgência de uma Política de Juventude. Será que não é hora dos personagens repensarem a Arca, projetar uma engrenagem que, ao invés da ilusão de satisfação para alguns com base na insatisfação de muitos pense numa sociedade realmente para todos?
 
Maurício de Araújo Zomignani é assistente social.
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UJS Santos repudia repressão aos rolezinhos

Carta de Repúdio da UJS de Santos sobre a repressão aos ‘rolezinhos’ organizados pela juventude

A União da Juventude Socialista de Santos através desta manifesta seu repúdio às atitudes tomadas por autoridades públicas, em especial dos Poderes Executivo e Judiciário do Estado de São Paulo, diante dos encontros promovidos por jovens, denominados ‘rolezinhos’.

Manifestamos total desacordo com a flagrante violação dos Direitos Humanos fundamentais, contidos na Carta das Nações Unidas e da qual o Brasil é signatário, e também de diversos dispositivos da Constituição Federal de 1988, conquistados às custas do sangue de milhares de brasileir@s após longos períodos de regimes de exceção em nosso país, em particular o direito de ir e vir e de não sofrer discriminação de qualquer espécie.

As liminares expedidas a pedido dos proprietários de alguns estabelecimentos comerciais são evidentes violações dos direitos consagrados pelas leis brasileiras, pois legitimam e autorizam as odiosas práticas de racismo e de discriminação social.

Num país que foi o último do continente a abolir a escravidão, que o trabalho não é devidamente reconhecido e valorizado e que ainda hoje convive com grave desigualdade na distribuição de renda e riquezas, não é difícil de saber a quem essas liminares se destinam: à juventude pobre, negra e parda, moradora das periferias.

Os centros de compra, popularmente conhecidos como ‘shopping centers’, apesar de serem espaços de propriedade privada, não são clubes, onde apenas se permite o acesso de um grupo limitado de associados. São espaços de livre circulação do público, comprador ou não. Restringir o acesso de quem quer que seja, em virtude da ‘aparência’, da idade e da condição social é crime.

Não nos surpreende, infelizmente, que setores da dita ‘elite’ se incomodem com a presença de milhões de brasileir@s que tiveram elevação do seu potencial de consumo a partir do ciclo progressista que conduz o Governo Federal nos últimos onze anos.

Nos surpreende e indigna saber que representantes do Poder Judiciário, que devem, constitucionalmente, salvaguardar as leis e distribuir justiça, expeçam liminares que permitem a violação da nossa Carta Magna.

Não nos surpreende, infelizmente, que mais uma vez o Governo do Estado de São Paulo, através do seu braço armado, a Polícia Militar, permita o uso de recursos financeiros e humanos para violar a lei e os direitos fundamentais dos cidadãos.

O direito de organização e livre manifestação das ideias e expressões artísticas e culturais deve ser garantido. Se a juventude hoje convoca os chamados ‘rolezinhos’ através das mídias sociais é mais um sinal de que os Poderes Públicos não tem sido capazes na tarefa de proporcionar lazer e entretenimento para a juventude. A imensa maioria das pessoas que organizam e participam desses eventos não podem ser estigmatizadas e postas sob suspeição. São estudantes, trabalhadoras e trabalhadores, cidadãos contribuintes, que procuram no tempo livre organizar e participar daquilo que os Governos não lhes oferecem.

Se há entre @s participantes pessoas que violam a lei, assim como há em praticamente todos os campos da atividade humana, inclusive na política, na polícia e no ramo empresarial, que os recursos d@s contribuintes sejam destinados para atividades de prevenção e inteligência, sem o uso (e muitas vezes abuso) de força e armas contra quem não está cometendo crime algum.

Aliás, quem está cometendo crime, sob amparo de liminares flagrantemente inconstitucionais são @s empresári@s, que colocam seus trabalhadores para discriminar e agredir as pessoas.

– Pela imediata revogação das liminares e afastamento dos juízes que as expediram;
– Pela garantia aos direitos constitucionais;
– Pela efetiva implementação de políticas públicas de/para/com a juventude;
– Por mais oportunidades de lazer e entretenimento públicas e gratuitas que atendam aos interesses da juventude;
– Não ao racismo e à discriminação social e cultural;
– Pelo fim do extermínio da juventude;
– Pela desmilitarização das Polícias;
– Pela rigorosa investigação da conduta e responsabilização civil e criminal d@s empresári@s e agentes públicos envolvidos.

Santos, 13 de janeiro de 2014.

A Direção Municipal da União da Juventude Socialista de Santos/SP.